PARTE II — O SISTEMA
Capítulo 10 — O Tempo, a Finitude e a Percepção
Dois fatores invisíveis
Volte por um instante ao par vida-sentido Par Vida-Sentido a relação fundamental do sistema: dois conceitos distintos, inseparáveis e mutuamente constitutivos, como espaço-tempo. O hífen é a tese. Lente 42 o instrumento imaginário proposto ao leitor, com duas funções: (1) um convite de leitura — vestir a mente aberta e deixar a ideia florescer antes de julgá-la; (2) um instrumento para "enxergar" a luz (o sentido) que toda vida emite, trazendo a parábola das Luzes para o mundo real.
E há uma consequência prática enorme nisso, porque o tempo de uma vida é finito. Não vamos entrar aqui na questão da imortalidade — assunto para mais adiante; basta o fato que toda vida conhece: o tempo é contado. Disso nasce a pergunta mais concreta que este capítulo enfrenta — não “o que é o tempo?”, mas como gastar bem o tempo que se tem?
Gastar bem o tempo
Gastar bem o tempo é difícil por uma razão que já vimos: a vida é imprevisível, e a ação erra. Não sabemos o futuro; não conhecemos as consequências diretas das nossas escolhas; e — o mais cruel — não sabemos hoje o valor que uma pessoa, uma situação ou um sentido terá amanhã. Não sabemos se teremos, no futuro, a oportunidade de reencontrar alguém, de perseguir aquele sonho, ou sequer se teremos a mesma vitalidade que temos agora. Toda decisão sobre o tempo — descansar ou avançar, ficar ou partir, adiar ou fazer agora, com quem estar, o que aprender — é tomada no escuro parcial.
Por isso, nenhuma vida acerta todas. E não é esse o alvo. O alvo é chegar ao fim e poder olhar para trás com gratidão: ter vivido com as pessoas que se queria, ter feito a maior parte do que se queria fazer, ter gasto o tempo — não perfeitamente, mas sabiamente, do jeito que se escolheu. Uma vida que, imperfeita, buscou ser melhor para si e para os outros; que fez coisas das quais se orgulha; que tem esperança de haver deixado um efeito bom, direto ou indireto, nas vidas que virão. Essa vida chega ao fim com uma calma que não se compra.
A última troca
Deixe-me contar uma cena — e peço que você a leia devagar, porque ela toca no assunto mais pesado deste guia, e o guia escolheu tocá-lo com a mão aberta, não de raspão.
Imagine uma vida bem velhinha, no fim do seu tempo orgânico. Uma vida que já viveu muito: emitiu muitos sentidos, recebeu muitos, guardou muitas memórias, amou bastante. Ela já está, dentro de si, em paz — grata pela vida que viveu, com esperança de que as coisas que fez seguirão fazendo bem a outras vidas depois dela. E imagine que, nesses últimos momentos, aparece outra vida — mais jovem, com mais tempo pela frente — que se senta ao lado e faz a coisa mais simples do mundo: ouve. Ouve as histórias, olha nos olhos, está presente.
O que acontece ali é uma última troca completa: uma emissão e uma recepção de sentido entre duas vidas. A vida velhinha é observada uma última vez em vida — vista, ouvida, reconhecida. E há algo imenso nisso, porque, como este guia vem dizendo desde o começo, sentir-se vivo é, no fundo, ser recebido por outra vida. Nos últimos instantes, sozinha, uma vida ainda pode conversar consigo mesma (a conversa interna consigo mesma). Mas com outra vida ao lado, ela pode fazer a coisa por inteiro: emitir para fora e receber de volta, sentir-se viva por completo uma última vez. Acredito — e aqui falo como quem nunca esteve perto disso — que a imensa maioria das vidas preferiria não estar sozinha nesse momento. Que a maioria gostaria de partir tendo alguém por perto.
E repare no que a vida mais jovem leva consigo depois: a última luz daquela vida que partiu. Aquela vida velhinha emitiu luz para muitas pessoas ao longo dos anos — mas aquele último vestígio, só quem estava ali recebeu. Não importa quem seja essa vida mais jovem; importa que houve alguém. É trágico e é bonito ao mesmo tempo. Talvez não exista ato de bondade mais profundo do que estar presente no fim de uma vida — dar a ela, no último instante, a experiência que toda vida busca do primeiro instante ao derradeiro: a de ser vista.
Por que a morte dá sentido
Aqui está uma das afirmações mais fortes deste guia, e uma das mais contra-intuitivas: é a morte que dá sentido à vida. É a finitude que dá urgência, peso, valor, importância. Por que proteger o que não pode se perder? Por que sentir a preciosidade de um tempo que não acaba? Um antigo ditado diz que a única coisa que sabemos com certeza é que um dia vamos morrer — óbvio, e por isso mesmo precisa ser dito aqui, porque é desse óbvio que este livro inteiro depende. Você provavelmente lerá este guia até o fim justamente porque sabe que o seu tempo é finito, que não pode desperdiçar a pequena — e enorme — vida que tem.
Nenhuma vida quer morrer. Toda vida quer viver: é o mais fundo do nosso ser, é a Manutenção falando. Num dos episódios mais lembrados da televisão britânica, um viajante do tempo, prestes a se transformar em outra versão de si, resume isso em quatro palavras: “eu não quero ir.”7 Doctor Who — o Décimo e o Décimo Segundo Doutores Duas falas. O Décimo Segundo responde que o que procura é "alguém que procure a gente", e que precisa de "uma mão para segurar" — a Regra do Mínimo Dois em estado puro. E o Décimo, ao morrer e se transformar, diz "eu não quero ir" — usado no Capítulo 10 como a voz de toda vida diante do próprio fim.
Há um paradoxo bonito no encerramento de um ciclo. Nos últimos momentos, a Manutenção — o P1, manter-se vivo — se torna impossível; nenhuma vida, nem as que amam a que parte, consegue mais sustentá-la. O ciclo que começou quando a vida foi gerada (sem depender dela mesma, porque nenhuma vida se cria sozinha) se fecha quando a vida não pode mais se manter. E no entanto, mesmo quando o primeiro princípio se esgota, os outros quatro ainda podem acontecer: ainda se pode proteger, gerar sentido, sentir-se vivo e fazer outra vida sentir-se mais viva — aquela última troca. Nada mais poético do que isso: a vida encerra pelo mesmo lugar por onde não pôde começar sozinha, e faz do último gesto um gesto para dois.
A vida é uma poesia
Talvez seja essa a imagem que fecha o capítulo. Um cineasta que criou uma das maiores sagas do cinema explicou certa vez por que pai e filho, em filmes diferentes da história, viram heróis do mesmo jeito — cada um destruindo uma nave inimiga: “é como poesia; rima.”35 George Lucas — "é como poesia, rima" O criador de Star Wars explicou as rimas estruturais da saga (pai e filho tornando-se heróis do mesmo modo) dizendo que é "como poesia; rima". Fecha o Capítulo 10 com a ideia da vida como poesia.
A saudade da luz que fica
Existe um filme de animação que se passa no México e gira em torno do Día de los Muertos, o Dia dos Mortos. A premissa dele é exatamente a deste capítulo, vestida de fábula: quem morre continua “vivendo” numa outra terra enquanto houver, entre os vivos, alguém que se lembre dele. No dia em que a última pessoa esquece — a “segunda morte” —, aí sim a existência se encerra de vez.17 Coco — A Vida é uma Festa (Pixar, 2017) Animação centrada no Día de los Muertos mexicano: os mortos permanecem numa outra terra enquanto houver, entre os vivos, quem se lembre deles; esquecidos por completo, sofrem a "segunda morte" e deixam de existir. Traduz, em fábula, a herança de sentido do Capítulo 10 — o coração se vai, o sentido permanece enquanto for reemitido. Frieren: Beyond Journey's End — Himmel No anime, a maga elfa Frieren segue agindo, décadas após a morte do herói humano Himmel, com base no que ele lhe ensinou: a luz dele continua nela e guia as suas escolhas. Exemplo perfeito da luz que fica, e da saudade como sentido sem circuito.
E é isto o que dá à saudade a sua definição exata neste sistema. Perguntaram uma vez a um ator o que ele achava que acontece depois que morremos, e a resposta dele foi desarmante: “sei que os que nos amam vão sentir a nossa falta.”36 Keanu Reeves Perguntado sobre o que acontece depois da morte, o ator respondeu que sabe que os que nos amam vão sentir a nossa falta. Ancora a definição de saudade no Capítulo 10.
Uma palavra de cuidado antes de seguir. Este capítulo caminhou por lugares pesados de propósito, porque um guia sobre o sentido da vida seria desonesto se desviasse da morte. Mas se estas páginas encontraram você num momento em que o próprio fim parece uma saída, ou em que a vida perdeu o peso, por favor: procure outra vida com quem falar — alguém próximo, e ajuda profissional. A lente inteira deste livro aponta para uma direção, e é a oposta do isolamento: sentido se completa entre vidas, e ninguém deveria atravessar o escuro sozinho quando há mãos para segurar.
A percepção do tempo
O tempo corre igual para todos; a percepção dele, não. Três forças a moldam — e vale separar cada uma, porque cada uma diz algo diferente sobre como vivemos.
A primeira é a quilometragem. Um aventureiro do cinema, provocado sobre a idade, responde que não são os anos, é a quilometragem.19 Indiana Jones — "não são os anos, é a quilometragem" A fala do arqueólogo do cinema abre a discussão da percepção do tempo (Capítulo 10): o que pesa não é o calendário, é a estrada rodada.
A segunda é o molde social. A percepção também é calibrada pelos sentidos das outras vidas. Imagine quatro pessoas num elevador que demora. Três dizem, ao sair: “nossa, foi rápido”. A quarta, que sentiu a demora, hesita — e muitas vezes reajusta a própria percepção para caber na do grupo: “é, foi rápido mesmo”. O sentido coletivo puxa o sentido individual. Ela pode recusar o molde e insistir que demorou — mas recusar tem custo, e a maioria das vidas, na maioria das vezes, cede à leitura coletiva sem perceber que cedeu.
A terceira é a reescrita do passado e do futuro. Nenhum dos dois é fixo: ambos são remoldados pelos sentidos disponíveis no presente. Registros mudam, visões de mundo coletivas mudam, e com elas muda a percepção do que foi e do que será. Um romance famoso sobre um regime totalitário mostrou o caso extremo disso — um Estado que reescreve o passado para controlar o presente20 George Orwell, 1984 (1949) O Estado totalitário reescreve continuamente o passado para controlar o presente. Ilustra o caso extremo da "reescrita do passado" na percepção do tempo (Capítulo 10).
E vale parar um instante nessa última frase, porque ela é mais estranha do que parece. Faça o teste com um caderno velho. Abra um diário que você escreveu há dez ou quinze anos — ou uma mensagem antiga, uma redação de escola, qualquer coisa com a sua letra e a sua assinatura. Leia devagar. Boa parte das vezes acontece a mesma coisa: você concorda com uma frase, discorda de outra, não faz ideia do que motivou a terceira. Você reconhece a caligrafia e não reconhece a pessoa. Tecnicamente, isso é uma comunicação cruzada entre dois desconhecidos que por acaso moram no mesmo corpo. A distância que separa vocês dois não é feita de metros; é feita de anos — e, do ponto de vista do sentido, ela funciona como uma distância de verdade: exige tradução, produz surpresa, ensina coisas. Guarde a observação; por ora ela é só uma curiosidade sobre a percepção do tempo. Este guia volta a ela mais adiante, quando ela deixar de ser curiosidade. Podemos sempre tentar nos aproximar do passado e do futuro verdadeiros; nunca teremos a garantia de tê-los alcançado.